15/02/2010 - Bem vindo a era do consumidor
Bem-vindo à era do consumidor
Aldemir Bendine*
A aproximação do Dia Internacional do Consumidor, comemorado no dia
15 de março, faz deste o momento ideal para relembrarmos a trajetória das
relações de consumo no Brasil.
A criação do Código de Defesa do Consumidor em 1990 foi um marco
para o surgimento de uma nova era nas relações de consumo – a era do foco
no consumidor. Amparado pela legislação, o consumidor deixou de ser um
agente passivo no processo de compra de bens e serviços e rapidamente se
tornou mais consciente de seus direitos. Na esteira da criação do Código,
surgiram inúmeros Procons. Iniciativa do Poder Público, esses órgãos
contribuíram para acelerar o processo de mudança de comportamento do
consumidor e logo se consolidaram como uma instância de fácil acesso para a
proteção dos consumidores.
Os avanços no direito do consumidor impuseram às empresas uma
rápida adaptação. A primeira reação veio com a onda dos SACs – os serviços
de atendimento ao cliente - que tiveram seu escopo de atuação ampliado e
cresceram de importância nos organogramas do mundo corporativo. A
evolução deste processo foi o fortalecimento da figura das ouvidorias e, mais
recentemente, a incorporação dos blogs como canais de contato direto com as
empresas.
Mas o cliente exigiu mais. Ou seja, ter um serviço eficiente para corrigir
uma falha não era suficiente. Sim, porque o SAC é, em síntese, um canal
aberto para resolver um problema. E, diante do mercado cada vez mais
competitivo, o melhor seria nunca aborrecer o consumidor a ponto dele precisar
procurar o SAC. Muito pelo contrário. O modelo perfeito de relação empresacliente
pressupõe que o cliente está tão satisfeito com o produto ou serviço que
adquiriu que não cogita mudar de fornecedor.
Mas este modelo ideal não existe. Porém, as empresas estão se
esforçando para atuarem de forma mais alinhada com as aspirações dos
consumidores. Um exemplo é a corrida para melhorar a postura sócioambiental.
Os investimentos em programas sociais e ambientais nunca foram
tão altos quanto na última década.
Diante deste cenário, as entidades de classe perceberam que poderiam
exercer seu papel de orientar e zelar pela adoção de boas práticas por parte
das empresas associadas, auxiliando-as a encontrar um caminho único para
satisfação dos consumidores.
Por isso, ao traçarmos uma trajetória da evolução das relações de
consumo no Brasil não podemos esquecer do papel desempenhado pelos
códigos de conduta, de ética e de auto-regulação - instrumentos sugeridos por
associações, federações e confederações de diversos setores e que servem
como guias para a atuação das empresas preocupadas com seus clientes e
com sua própria sustentabilidade no mercado.
O resultado destes códigos, sem dúvida, beneficia diretamente o
consumidor, que ganha mais um aliado na defesa de seus interesses. A
empresa também ganha porque, na prática, se seguir as orientações sugeridas
pelas entidades estará muito mais próxima de atender aos interesses de seu
cliente, já que este não precisará recorrer ao Código de Defesa do Consumidor
e a nenhum outro instrumento legal para se proteger.
Muitas iniciativas surgiram nos últimos anos. Só no mercado financeiro,
podemos citar os códigos lançados pela Febraban (Federação Brasileira de
Bancos), Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), Conselho
Nacional de Seguros Privados e Abecs (Associação Brasileira das Empresas
de Cartões de Crédito e Serviços).
Lançado no início de 2009, o Código de Ética e Auto-regulação da
Abecs é uma evolução do Manual do Portador de Cartões, formulado pela
entidade em 2006 e que pode ser considerado um embrião da preocupação
com o estabelecimento de uma relação saudável entre as empresas
fornecedoras de cartões e seus clientes. Sim, porque em 2006 a Abecs já tinha
percebido que os cartões estavam ocupando cada vez mais importância nas
relações de compra, tendo em vista que o setor vem crescendo mais de 20% a
cada ano. Hoje, diferentemente do passado, já é corriqueiro pagar uma corrida
de táxi com o cartão. Tanto que, só em São Paulo, mais de 3 mil carros já
rodam com terminais wireless. Também é absolutamente normal pagar com
cartão o almoço ou o estacionamento, independente do valor.
Por tudo isso, as fornecedoras de cartões acabaram se interpondo na
relação empresa-cliente. Esta influência - como um terceiro na relação de
consumo - exige das empresas de cartões um comportamento alinhado com as
boas práticas comerciais e também no âmbito de responsabilidade
socioambiental.
Além de indicar a conduta considerada mais adequada no
relacionamento com seus diferentes clientes, o código de ética e autoregulação
da Abecs também estimula os atores desse cenário a contribuir para
a melhoria da qualidade de vida da comunidade onde estão inseridos, entre
outras coisas.
O consumidor está mais exigente, aprendeu a se proteger e sabe onde
encontrar os instrumentos para se defender. Para corresponder a estas
expectativas, as empresas precisam estar abertas para superar eventuais
obstáculos e dificuldades e continuar na busca pelo modelo ideal de
relacionamento com os consumidores.
O fundamental será agir sempre com respeito e ética e aproveitar todos
os instrumentos à disposição, em especial os códigos de conduta propostos
pelas entidades de classe. E bem-vindo à era do consumidor.
* Aldemir Bendine é presidente da Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de
Crédito é Serviços)
Fonte: ABECS |